Por que contratar uma paisagista se eu mesma posso escolher minhas plantas?
Talvez essa seja uma das perguntas mais honestas sobre paisagismo.
Porque, vamos combinar: comprar uma planta não parece exatamente uma tarefa para a qual você precisaria contratar um profissional. Você vai a uma loja, escolhe uma que acha bonita, compra um vaso, coloca em algum canto da casa e pronto.
Ou pelo menos deveria ser assim.
Até a planta começar a ficar amarela.
Ou crescer muito mais do que você imaginava.
Ou não crescer nada.
Ou você descobre que aquele lugar maravilhoso que escolheu para ela simplesmente não tem luz suficiente.
Foi mais ou menos dessa provocação que nasceu uma conversa que tive com Karen Coquejo, paisagista, sobre uma profissão que muita gente ainda associa a jardins enormes, casas de alto padrão ou projetos dignos de revista.
E eu comecei justamente por aí…
Karen, eu acho curioso porque no comercial a gente aceita muito facilmente a ideia de contratar um paisagista. Tem projeto de arquitetura, iluminação, comunicação visual, paisagismo... tudo planejado. Mas quando chega na nossa casa, parece que pensamos: "planta eu mesma compro".
Sim! E eu já ouvi exatamente isso. "Pra que eu vou te contratar para colocar planta? Minha avó também coloca." E, assim... coloca mesmo.
Minha família também sempre teve plantas. Tem jardim lindo feito por gente que nunca estudou paisagismo.
Só que uma coisa é você ter plantas. Outra coisa é você projetar um paisagismo.
Mas então... o que exatamente uma paisagista projeta?
Acho que é justamente isso que as pessoas não entendem. Quando você fala "projeto de paisagismo", parece que vai simplesmente escolher onde entra cada vaso.
E não é.
Quando eu escolho uma planta, preciso entender primeiro onde ela vai viver. Onde bate sol? Quanto tempo de sol? Tem corrente de vento? É uma área interna ou externa? Como é aquele ambiente? Que planta consegue se desenvolver ali sem sofrer?
Porque cada espécie vem de um determinado habitat. Quando colocamos uma planta dentro de uma casa, de certa forma estamos tentando criar condições para que ela consiga viver naquele novo lugar.
Então não é só: "Essa planta é bonita." É: "Essa planta é bonita, funciona aqui e faz sentido para essa pessoa?"
E talvez essa seja uma das partes que mais me interessam nessa conversa. Porque acontece exatamente a mesma coisa na arquitetura. Você pode gostar de uma bancada. De uma cor. De uma luminária. De uma cozinha que viu no Pinterest. Mas um projeto não nasce da soma de várias coisas bonitas. Ele nasce da relação entre elas.
No paisagismo também.
"Mas eu quero escolher as minhas plantas."
Tem uma frase que eu escuto muito na arquitetura: "Eu não quero contratar arquiteto porque quero fazer a casa do meu gosto." Como se contratar um profissional significasse abrir mão do próprio gosto. E acho que no paisagismo existe um pouco disso também. A pessoa pensa: "Mas eu gosto dessa planta. Quero essa."
E pode querer!
No residencial isso é muito importante. Eu posso explicar que determinada combinação ficaria mais uniforme, sugerir outras possibilidades, mostrar o que funciona melhor tecnicamente... mas aquela casa não é minha. Ela precisa ter a cara de quem mora ali.
Eu estou fazendo um projeto agora em que os clientes trouxeram várias coisas que tinham significado para eles. Tem árvore-da-felicidade. Tem espada-de-São-Jorge. Tem plantas que conversam com a espiritualidade e com a história deles.
E isso deixa o residencial muito diferente do comercial.
E eu acho que aí está uma coisa muito bonita. Porque talvez contratar uma paisagista não seja contratar alguém para decidir quais plantas você deveria gostar. É contratar alguém para conseguir transformar aquilo de que você gosta em algo que também funcione.
Aliás, é exatamente o que defendemos sobre arquitetura por aqui. O profissional não deveria apagar a personalidade do morador. Deveria ajudar a viabilizá-la.
A casa não precisa parecer um showroom
No comercial existe muito essa preocupação de criar um espaço bonito, marcante, instagramável. Tem uma estética que precisa comunicar alguma coisa para várias pessoas. No residencial é diferente. É muito mais sobre quem mora ali.
E talvez seja justamente por isso que eu ache estranho quando paisagismo residencial aparece quase sempre associado a casas enormes, jardins impecáveis e projetos de altíssimo padrão. Porque parece que existe uma mensagem escondida ali: paisagismo é para quem tem um jardim gigantesco. E não é.
Você pode morar em uma casa.
Em um apartamento.
Ter uma varanda.
Uma jardineira.
Uma área externa pequena.
Ou simplesmente querer incorporar plantas aos ambientes internos de uma maneira mais planejada.
A escala muda. O princípio não.
Porque "comprar plantas" também custa dinheiro
Tem ainda outra questão que raramente entra na conta.
Comprar errado também custa.
Uma planta que não se adapta ao ambiente custa.
Um vaso comprado no tamanho errado custa.
Trocar plantas que morreram custa.
Descobrir depois que aquela espécie crescerá muito mais do que você imaginava custa.
Criar uma composição inteira e perceber que ela não funciona custa.
E paisagismo não envolve exclusivamente o preço da planta. Dependendo do projeto, entram vasos, substratos, jardineiras, irrigação, mão de obra para implantação e posteriormente manutenção.
O projeto não existe para fazer você gastar mais. Ele existe para ajudar você a entender onde faz sentido gastar.
E depois que o jardim fica pronto?
Acho que também existe uma expectativa de que o paisagista vai embora e pronto. Agora é só molhar.
E depende muito. Tem cliente que cuida super bem das plantas no dia a dia. Mas ainda assim pode existir manutenção periódica. Pode aparecer uma praga. Uma planta pode começar a sofrer. Pode precisar de poda, correção, adubação, algum cuidado específico.
No meu trabalho, por exemplo, eu projeto e trabalho junto com o jardineiro na implantação. Cada profissional tem sua função. Eu desenho, faço as escolhas e penso o conjunto. E quem está diariamente lidando com plantio e manutenção tem outro conhecimento técnico importante.
Em alguns projetos, a manutenção profissional acontece periodicamente justamente para observar o desenvolvimento das plantas, realizar correções e identificar problemas.
Que é outra coisa interessante. Porque a gente costuma olhar a foto de um jardim pronto e pensar que aquilo é o projeto. Mas planta cresce. Muda. Ocupa espaço. Às vezes demora anos para chegar naquela imagem que imaginamos.
Paisagismo trabalha com uma matéria-prima viva. E talvez isso seja uma das coisas mais bonitas dele.
Então todo mundo precisa contratar uma paisagista?
Não necessariamente. E acho importante dizer isso.
Se você ama plantas, pesquisa espécies, conhece a luz da sua casa, gosta de experimentar, acompanha o desenvolvimento delas e quer construir esse jardim aos poucos, maravilhoso. Existe muita beleza nisso também.
Mas a pergunta talvez não seja: "Eu consigo comprar plantas sozinho?" Claro que consegue. Assim como você consegue comprar um sofá sozinho. Escolher uma tinta sozinho. Comprar uma luminária sozinho.
A questão é outra: você quer apenas comprar algumas plantas ou quer pensar no paisagismo como parte da sua casa?
Porque, quando ele vira projeto, começamos a falar de composição, proporção, espécies, desenvolvimento, luz, vento, manutenção, vasos, implantação — e, principalmente, da relação entre tudo isso e a maneira como você vive. É aí que entra a paisagista.
Sobre a convidada
Karen Coquejo · Paisagista, Estúdio Coque
Paisagista biofílica, especializada em plantas preservadas e na criação de ambientes residenciais e comerciais que aproximam pessoas e natureza.
@karencoquejoE talvez a melhor parte seja justamente não parecer "projetado demais"
No final da nossa conversa, fiquei pensando em uma coisa. Um bom paisagismo residencial talvez não seja aquele em que alguém entra na casa e imediatamente pensa: "Nossa, contrataram um paisagista aqui."
Talvez seja aquele em que as plantas parecem pertencer àquele lugar. Algumas escolhidas pelo profissional. Outras que o morador já tinha. Uma que veio da casa da mãe. Outra que lembra a avó. Aquela espécie que ele simplesmente ama e fez questão de colocar, mesmo não sendo a escolha mais óbvia da composição.
Porque projeto também é isso. Não é criar uma casa perfeita para ser fotografada. É organizar desejos, histórias, necessidades e possibilidades para construir um lugar no qual alguém se reconheça.
E, pensando bem, talvez projetar com plantas não seja tão diferente de projetar uma casa. Nos dois casos, no fim das contas, estamos tentando criar um lugar onde a vida consiga acontecer.
Explore outros projetos e conteúdos da Lírico Arquitetura aqui no site para entender como funciona o processo de criar espaços que ganham significado ao longo do tempo.