CasaCor 2026:
E a geração que está plantando as primeiras raízes
Antes de falar sobre o manifesto de 2026, vale dar um passo atrás.
Para quem não é da área, a CasaCor é a maior mostra de arquitetura, design de interiores e paisagismo das Américas. Todos os anos, profissionais de diferentes regiões do país são convidados a criar ambientes inéditos que vão muito além de tendências ou lançamentos de produtos. Cada edição parte de um tema central, que orienta as reflexões sobre a forma como vivemos, ocupamos nossos espaços e nos relacionamos com eles.
Em 2026, o tema escolhido foi "Mente e Coração". Construído a partir de uma pesquisa sobre as transformações contemporâneas do morar, o manifesto propõe uma reflexão sobre a necessidade de reconectar razão e sensibilidade em um mundo marcado pela hiperconectividade, pelo excesso de informações e pela constante sensação de urgência. A casa deixa de ser apenas um lugar onde moramos e passa a ser entendida como um espaço de acolhimento, autocuidado e equilíbrio, capaz de proteger sem nos isolar e de nos reconectar com aquilo que nos torna humanos.
Ao longo do manifesto, aparecem conceitos como ancestralidade, memória, natureza, fazer manual e pertencimento. Durante o evento de lançamento, essas ideias também foram aprofundadas em palestras que discutiram as inteligências ancestral, orgânica, manual e emocional como caminhos para reconstruir nossa relação com o tempo, com o corpo e com os espaços que habitamos.
É uma proposta potente e extremamente necessária.
Mas, enquanto acompanhava essa apresentação, uma pergunta permaneceu comigo.
Como essa ideia de reconexão conversa com uma geração que, muitas vezes, não está voltando para um lugar conhecido, mas construindo seu primeiro lugar de pertencimento?
O Desafio da Primeira Geração
Quando o lar não é uma herança, mas uma conquista
Grande parte do manifesto parece partir da ideia de reconexão. Como se estivéssemos retornando para algo que já conhecemos. Uma memória, uma tradição familiar, uma forma de viver que ficou para trás, uma herança…
A escritora Bell Hooks dizia que o lar não é apenas um espaço físico. É um lugar onde podemos existir inteiros, construir identidade e desenvolver nossa subjetividade.
Mas Hooks também lembra que essa possibilidade nunca foi igual para todo mundo.
Nem toda história familiar deixou como herança uma casa cheia de memórias, móveis antigos, objetos atravessados por gerações ou uma relação tranquila com o pertencimento.
Para muita gente, a herança recebida foi outra: instabilidade, mudanças constantes, aluguel, adaptações, a sensação de que nada era realmente seu.
Por isso, quando um jovem compra seu primeiro apartamento, ele não está apenas adquirindo um imóvel.
Ele está inaugurando uma história.
É a primeira parede onde escolhe a própria cor.
É o primeiro quadro que pendura porque gosta.
É a primeira mesa comprada pensando em receber amigos.
É a primeira planta que decide cuidar.
São gestos aparentemente pequenos.
Mas profundamente simbólicos.
Construir memórias também é construir patrimônio
Talvez por isso eu sinta que existe um diálogo que ainda precisa acontecer dentro desse manifesto.
Porque, quando falamos em ancestralidade, normalmente imaginamos olhar para trás.
Mas existe uma geração inteira cuja maior ancestralidade talvez esteja justamente naquilo que ela está criando agora.
Ela não está restaurando uma casa de família.
Está construindo a casa que um dia poderá ser a casa da família.
Existe uma diferença enorme entre preservar uma memória e criar uma memória.
E isso muda completamente a forma de morar.
O tempo lento
Outro aspecto que atravessa o manifesto é a valorização do tempo. O tempo da natureza, do fazer manual, da cooperação entre gerações e dos processos lentos.
Concordo com essa perspectiva, mas acredito que exista outro tempo igualmente importante: o tempo possível.
A casa de quem está começando quase nunca fica pronta de uma única vez. O sofá chega antes da estante, os quadros aparecem depois das viagens, a luminária desejada precisa esperar mais alguns meses e as plantas ocupam a varanda quando a rotina finalmente permite cuidar delas. Não existe fracasso nessa construção gradual. Existe, na verdade, uma narrativa sendo escrita aos poucos.
Talvez desacelerar também seja aceitar que uma casa amadurece junto com quem mora nela.
O futuro também pode ser uma herança
No fim, saí da apresentação pensando que talvez o maior diálogo entre o manifesto e a realidade de muitos jovens esteja menos na ideia de recuperar um passado e mais na coragem de construir um futuro.
Existe uma geração inteira que não está restaurando uma casa de família, mas criando a primeira casa da família. Uma geração que talvez não tenha herdado móveis antigos, objetos carregados de significado ou tradições domésticas consolidadas, mas que está criando tudo isso agora.
E talvez seja justamente esse o encontro entre mente e coração: compreender que um lar não nasce apenas daquilo que recebemos, mas também daquilo que escolhemos construir. Porque, para quem nunca herdou um porto seguro, transformar um apartamento comum em um lugar cheio de significado talvez seja uma das formas mais bonitas de inaugurar uma nova história.
Voz da Lírico
E se ampliássemos essa conversa?
Enquanto voltava da apresentação, fiquei pensando que talvez a arquitetura esteja vivendo um momento muito bonito: voltamos a falar sobre afeto, pertencimento, tempo, memória e identidade. Durante muitos anos, parecia que o morar estava restrito à estética, à tecnologia ou à funcionalidade. Hoje, felizmente, voltamos a falar sobre pessoas.
Mas talvez exista uma pergunta que ainda possa ser feita.
Quem são as pessoas que estamos imaginando quando falamos sobre lar?
Será que estamos conseguindo representar também quem está construindo seu primeiro patrimônio? Quem nunca herdou uma casa, mas sonha em deixar uma? Quem mora em apartamentos pequenos, em grandes centros urbanos, e encontra ali o seu primeiro espaço de autonomia?
Talvez essas histórias também mereçam fazer parte dessa conversa.
Não para substituir as narrativas sobre ancestralidade, natureza ou memória, mas para ampliar o significado delas. Afinal, para muita gente, ancestralidade também pode ser aquilo que começa agora. Memória também pode ser aquela que ainda está sendo construída. E natureza talvez seja menos sobre a paisagem ideal e mais sobre encontrar respiro dentro da cidade possível.
Como arquitetos, temos a oportunidade e talvez a responsabilidade de provocar essas discussões. Porque a arquitetura nunca fala apenas sobre espaços. Ela fala sobre quem pode ocupá-los, sobre quem se sente pertencente a eles e sobre quais histórias escolhemos contar através deles.
Talvez seja justamente esse o papel de eventos como a CASACOR: não apenas apresentar respostas, mas abrir espaço para perguntas. Perguntas que nem sempre cabem em um ambiente expositivo, mas que podem transformar a maneira como entendemos o morar contemporâneo.
Eu, pelo menos, saí de lá com algumas delas.
E espero que, nos próximos anos, possamos continuar levando essas perguntas para dentro das mostras, das universidades, dos escritórios e das conversas entre arquitetos. Porque quanto mais diferentes forem as experiências representadas, mais completa será a arquitetura que construiremos daqui para frente.
Explore outros projetos e conteúdos da Lírico Arquitetura aqui no site para entender como funciona o processo de criar espaços que ganham significado ao longo do tempo.